Os ecossistemas abertos da Mata Atlântica — como campos rupestres, campos de altitude, restingas e inselbergs — são tema de destaque em nova edição do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA-MCTI), que publicou volume temático do Boletim do Museu de Biologia Mello Leitão dedicado aos Ecossistemas Abertos do bioma.
Entre os trabalhos, um artigo conta com a participação de servidoras do IEF e evidencia o protagonismo de Minas Gerais na integração entre ciência e gestão pública ambiental.
Intitulado “A necessidade de proteção legal de ecossistemas abertos da Mata Atlântica”, o estudo destaca lacunas históricas na legislação brasileira. Embora o bioma seja amplamente associado às florestas, os pesquisadores alertam que os ecossistemas abertos possuem alta biodiversidade, elevado grau de endemismo e exercem funções ecológicas essenciais.
Mesmo assim, esses ambientes ainda são pouco contemplados por políticas públicas, o que amplia vulnerabilidades frente a pressões como mineração, expansão urbana, espécies invasoras e manejo inadequado do solo.
O artigo aponta avanços conduzidos pelo Sistema Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Sisema) para aperfeiçoar normas voltadas aos campos naturais. Esses ecossistemas possuem características próprias, como predominância de vegetação herbácea e maior sensibilidade a distúrbios, exigindo critérios específicos para diagnóstico ambiental, avaliação de impactos e compensações por supressão vegetal.
A pesquisa também ressalta iniciativas que fortalecem a conexão entre ciência e políticas públicas, como os Planos de Ação Territoriais (PATs), coordenados pelo IEF, e o Projeto Pró-Espécies. Em nível nacional, o tema avança com a articulação na Comissão Nacional de Biodiversidade (Conabio) para a elaboração da Estratégia Nacional para os Campos Naturais.
A participação das analistas do IEF reforça o papel estratégico do órgão na formulação de políticas baseadas em evidências científicas e no aprimoramento da gestão da biodiversidade em Minas.
Os autores defendem que a conservação da Mata Atlântica deve ir além das florestas, reconhecendo os ecossistemas abertos como sistemas naturais complexos e essenciais. “Os ecossistemas abertos precisam deixar de ser invisíveis nas políticas públicas. Não são áreas degradadas, mas sistemas naturais únicos”. "Se quisermos conservar de fato a Mata Atlântica, precisamos integrar esses ambientes nas estratégias de proteção", destacam os pesquisadores Pedro Viana e Fernando Silveira.
A servidora Mariana Pimenta ressalta que um dos desafios é adaptar instrumentos legais à realidade desses ambientes, ajustando critérios de diagnóstico, avaliação de impacto e compensação ambiental.
Gabriela Brito, destaca avanços recentes: “Instrumentos como os PATs ajudam a dar visibilidade a esses ambientes e transformar conhecimento técnico em ações concretas de conservação.”
Serra do Padre Ângelo reúne riqueza biológica e pressões crescentes
A mesma edição traz o artigo “Serra do Padre Ângelo (Minas Gerais): uma síntese da pesquisa em uma região prioritária para conservação”, reforçando a importância dos campos rupestres do leste mineiro.
Localizada no Vale do Rio Doce, a Serra do Padre Ângelo é refúgio de biodiversidade, com altos níveis de endemismo, espécies ameaçadas e novas descobertas científicas. A área também é estratégica para a provisão de água. “A Serra do Padre Ângelo é exemplo da riqueza e da fragilidade dos campos naturais em Minas Gerais”, afirma o pesquisador Paulo Gonella.
O estudo aponta pressões como queimadas, invasões biológicas, desmatamento e uso inadequado do solo, reforçando a necessidade de criação de unidades de conservação e outras medidas de proteção.
A região é prioritária no PAT Capixaba-Gerais, que apoia levantamentos de biodiversidade e estratégias de conservação.
As publicações completas estão disponíveis no site do INMA: Boletim 1 e Boletim 2.

