Minas Gerais lança projeto de Listas Vermelhas para orientar conservação da biodiversidade no estado

Notícia

Qua, 01 abr 2026
Instrumento científico atualizado fortalece a gestão ambiental e amplia o conhecimento sobre espécies ameaçadas em Minas Gerais

Foto: Robson Santos
Minas Gerais lançou o projeto das Listas Vermelhas para identificar espécies ameaçadas e fortalecer a conservação com base em dados científicos
Minas Gerais lançou o projeto das Listas Vermelhas para identificar espécies ameaçadas e fortalecer a conservação com base em dados científicos

Minas Gerais deu mais um passo estratégico na proteção da biodiversidade ao lançar, nessa terça-feira (31/3), o projeto de elaboração das Listas Vermelhas da fauna e flora ameaçadas de extinção no estado. O evento foi realizado no Museu de Ciências Naturais da PUC Minas, em Belo Horizonte, reunindo representantes do poder público, especialistas, pesquisadores e instituições ligadas à agenda ambiental.

A iniciativa tem como objetivo identificar, classificar e atualizar o grau de ameaça das espécies presentes no território mineiro, com base em critérios técnicos reconhecidos internacionalmente. O trabalho segue parâmetros da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) e considera fatores como perda de habitat, pressão antrópica, fragmentação de ecossistemas e dinâmica populacional das espécies.

Mais do que um levantamento científico, as Listas Vermelhas se consolidam como um instrumento estruturante para a gestão ambiental no estado. A ferramenta orienta a criação e ampliação de unidades de conservação, apoia a definição de estratégias de proteção e contribui para a aplicação de políticas públicas voltadas à conservação da biodiversidade.

Além disso, o instrumento também deve ampliar o conhecimento sobre espécies pouco estudadas e direcionar pesquisas científicas, especialmente nos casos em que há falta de dados — uma das principais limitações atuais para a conservação.

Durante o lançamento, a diretora de Proteção à Fauna do Instituto Estadual de Florestas (IEF-MG), Laura Homem, destacou o caráter estratégico da iniciativa ao integrar diferentes setores em torno de um objetivo comum. “A atualização das listas envolve a participação do setor público, da comunidade científica e de diferentes atores, com foco na identificação das espécies sob risco de extinção. Trata-se de um instrumento essencial para o planejamento do território e o enfrentamento da perda de biodiversidade”, afirmou.

A gerente de Recuperação Ambiental e Planejamento da Conservação dos Ecossistemas, Mariana Pimenta, reforçou a relevância da iniciativa para o estado, especialmente no apoio à tomada de decisões mais qualificadas. “A iniciativa contribui diretamente para a criação de unidades de conservação e orienta estratégias mais efetivas de proteção das espécies ameaçadas”, destacou.

Outro ponto relevante é o fortalecimento da base de dados sobre a fauna e a flora mineiras. A sistematização dessas informações permite identificar lacunas de conhecimento, direcionar estudos e qualificar ações de monitoramento e conservação.

Espécies ameaçadas e cenário global reforçam urgência da iniciativa

Entre os exemplos que evidenciam a urgência desse trabalho está o peixe Henochilus wheatlandii, conhecido como andirá ou peixe-prata, criticamente ameaçado e restrito a poucos trechos de rios no estado, impactado pela degradação dos ambientes aquáticos.

Na flora, espécies nativas também enfrentam alto risco de desaparecimento, especialmente nos biomas Cerrado e Mata Atlântica, onde a perda de habitat compromete a manutenção das populações.

Já entre os invertebrados, Spinopilaria moria representa um grupo ainda pouco conhecido, mas essencial para o equilíbrio ecológico, reforçando a necessidade de ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade mineira.

O projeto é lançado em um contexto de intensificação da perda de biodiversidade em escala global. Informações apresentadas durante o evento indicam que o ritmo atual de extinção de espécies pode ser entre 10 e 100 vezes superior à média observada ao longo dos últimos 10 milhões de anos, com estimativas apontando que até 14% da biodiversidade mundial esteja sob algum nível de ameaça.

Corais, anfíbios e espécies arbóreas estão entre os grupos mais afetados. A partir desse cenário, especialistas apontam a relevância de instrumentos regionais, como as Listas Vermelhas, para qualificar a tomada de decisão e direcionar ações mais efetivas de conservação.

A elaboração das listas integra as ações de compensação socioambiental decorrentes do rompimento da barragem em Brumadinho, em 2019, com financiamento previsto no acordo de reparação firmado em 2021. A iniciativa conta com o apoio da Fundação Biodiversitas e da Biocev, reunindo instituições técnicas e científicas em torno do fortalecimento da conservação da biodiversidade em Minas. Durante o lançamento, representantes da Associação dos Familiares e Atingidos pelo Rompimento da Barragem da Vale em Brumadinho (Avabrum) também acompanharam a apresentação do projeto.

Com duração estimada de 30 meses, o projeto será desenvolvido em etapas que incluem levantamento e análise de dados, consultas públicas, validação científica e publicação dos resultados. Ao final, será disponibilizado um “Livro Vermelho” com as espécies ameaçadas no estado, além de um guia prático e de uma plataforma digital aberta ao público, ampliando o acesso às informações e o uso dos dados na gestão ambiental.

Para quem quiser acompanhar mais detalhes sobre o lançamento, o vídeo completo está disponível em nosso canal no Youtube - clique aqui.

Caroline Mércia
Ascom/Sisema